João Ubaldo Ribeiro
sábado, 7 de março de 2009
Cesare Pavese
(...)Sabemos que o modo mais seguro - e mais rápido - de nos espantarmos é fixarmos impávidos o mesmo objecto. Num belo momento, este objecto parecer-nos-á - miraculoso - que nunca o tínhamos visto.
sexta-feira, 6 de março de 2009
Cesare Pavese
(...) A água é mais azul que os abrunhos no meio do verde. Parece-me que sou uma sombra entre as sombras das árvores. Quanto mais me aqueço a este sol, mais me parece derreter-me em gotas e sussurros, na voz do lago, nos renques do bosque. Há algo de remoto atrás dos troncos, nas pedras, no meu próprio suor(...)
Um poema de Cecília Meireles
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
.
.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
.
.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
quinta-feira, 5 de março de 2009
Um poema de Carlos de Oliveira
seguindo o fio
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor:
Micropaisagem, 1969
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor:
Micropaisagem, 1969
Um poema de Manuel de Freitas
Havia junto ao velho portão
um monte de tijolos vermelhos
e não existe nenhuma razão concreta
para se considerar relevante aquele momento.
Porém, julgando tocar a eternidade,
a criança ordenou ao tempo
que parasse. Pequeno deus
brincando sozinho ao entardecer,
sob as amarras azuis do bibe.
A ordem, claro, não pôde
ser cumprida. E só lhe restam
agora o tempo, o nada, a morte
e as palavras que não sabem dizê-los.
Ou essa música para mãos paradas
que trouxe consigo o Outono,
junto do velho portão verde
que tantos anos depois reabriu.
Chama-se Pandora, Cassandra,
Manuel António.
um monte de tijolos vermelhos
e não existe nenhuma razão concreta
para se considerar relevante aquele momento.
Porém, julgando tocar a eternidade,
a criança ordenou ao tempo
que parasse. Pequeno deus
brincando sozinho ao entardecer,
sob as amarras azuis do bibe.
A ordem, claro, não pôde
ser cumprida. E só lhe restam
agora o tempo, o nada, a morte
e as palavras que não sabem dizê-los.
Ou essa música para mãos paradas
que trouxe consigo o Outono,
junto do velho portão verde
que tantos anos depois reabriu.
Chama-se Pandora, Cassandra,
Télefo, mas volta a assinar
Manuel António.
Primavera
Quando o pessegueiro rebentar
Vou eu hibernar no tronco dele.
Os seu frutos serão disfarçadamente os meus.
Vou eu hibernar no tronco dele.
Os seu frutos serão disfarçadamente os meus.
Anos 90
O teu corpo dói (confesso).
Não sei se por desejo ou atrofío
Mas sinto dor nos teus braços,
Sinto que a carne parte para lugares que não conheço.
Fora assim, na noite passada. Eu chegara,
Dias depois de ti
E não te vira no café habitual.
O meu amor - desculpa, não leias, fica mal - não se encontrava por ali.
Pensei-te no choupal,
Procurei-te nas folhas renovadas
E encontrei-te.
Mas senti dor.
Não sei se por desejo ou atrofío
Mas sinto dor nos teus braços,
Sinto que a carne parte para lugares que não conheço.
Fora assim, na noite passada. Eu chegara,
Dias depois de ti
E não te vira no café habitual.
O meu amor - desculpa, não leias, fica mal - não se encontrava por ali.
Pensei-te no choupal,
Procurei-te nas folhas renovadas
E encontrei-te.
Mas senti dor.
Olhava profundamente nos teus olhos
E pensava não há nada de errado neste brilho - sinto fogo
Terra cravada nos pés, uma espécie de aliança com as árvores mais antigas.
Depois, os vitrais confirmariam a minha insistência - o pão,
O vinho,
O Alentejo em figura estilizada.
Crescera por dentro
Ao ver-te melhor nessa luz;
Os teus olhos eram agora aquilo que eu julgara ver
Ou talvez o brilho fosse um simples jogo de espelhos
Onde nos baralhamos
Nas voltas do farol.
E pensava não há nada de errado neste brilho - sinto fogo
Terra cravada nos pés, uma espécie de aliança com as árvores mais antigas.
Depois, os vitrais confirmariam a minha insistência - o pão,
O vinho,
O Alentejo em figura estilizada.
Crescera por dentro
Ao ver-te melhor nessa luz;
Os teus olhos eram agora aquilo que eu julgara ver
Ou talvez o brilho fosse um simples jogo de espelhos
Onde nos baralhamos
Nas voltas do farol.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















