
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Trago-te ao Espaço da Janela
Trago-te ao espaço da janela.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse «uma alucinação». A
única resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
sábio com quem quiseste ser sábio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.
«Talvez seja a morte» «não»
«se for a morte o coração baterá mais ou menos forte».
O corpo
não tem grande lugar.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse «uma alucinação». A
única resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
sábio com quem quiseste ser sábio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.
«Talvez seja a morte» «não»
«se for a morte o coração baterá mais ou menos forte».
O corpo
não tem grande lugar.
João Miguel Fernandes Jorge, in "Meridional"
Vestígios
noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas - noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavamos
líquenes das imundas máscaras
hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se
onde se pode - num vocabulário reduzido e
obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir
apesar de tudo
continuamos e repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva - vamos pela febre
dos cedros acima - até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas - noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavamos
líquenes das imundas máscaras
hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se
onde se pode - num vocabulário reduzido e
obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir
apesar de tudo
continuamos e repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva - vamos pela febre
dos cedros acima - até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial
Al-Berto
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
Jorge de Sena
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Há um segredo nas grades do portão. É por ter grades que o portão é secreto. Às vezes, chego perto dele, tento empurrá-lo mas não consigo porque não tenho a chave que o abre. E quando alguém o abre eu não estou perto dele. Mas isso é só por acaso, pois eu estou muitas vezes perto do portão. Do outro lado vejo uma casa que não deve ser habitada, pois as portadas das janelas nunca estão abertas. Depois, vejo uma estrada que se estende até perder de vista, até ao momento onde de certeza existe outro portão. Mas esse portão eu não conheço. Não sei se existe e não sei se está fechado ou aberto. É por isso que não me conheço. E nesse portão deve existir alguém que o abre, que o fecha, que o empurra, mas que não consegue porque não tem a chave. E esse alguém eu não sei se existe. É por isso que não me conheço.
Há um mistério nas grades do portão. Cortam a casa e a paisagem. É por isso que não me conheço.
Empurro o portão com força.
Este abre com dificuldade. Vejo a casa sem grades e toda a paisagem.
Viro costas.
Vejo o mesmo que via, agora reflectido nas águas do lago.
Existirá um portão com grades? Não o vejo. É por isso que não me conheço.
Anos 90
domingo, 15 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Em São João, na maré alta
Crianças puxam barcos a cordel.
Outras guardam em pequenos baldes
Estrelas, anémonas, conchas
Que poderiam ter trazido em peregrinação.
Há túneis com água,
Castelos de brincar
Onde a Sara inventa — por breves instantes —
A glória do seu reino e do seu nome.
Na maré baixa
Migram os rochedos,
As fortalezas dão lugar a pequenos lagos
De algas e canções.
As crianças disputam o pequeno areal
Enquanto os pais, de olhar mais distraído nos veleiros,
Sonham Dezembro disposto noutras fortalezas,
Num outro ângulo de visão.
A praia, o pequeno areal,
O mar em frente
Estende ou aproxima os pequenos sonhos
Baralhados num jogo de brincar.
Crianças puxam barcos a cordel.
Outras guardam em pequenos baldes
Estrelas, anémonas, conchas
Que poderiam ter trazido em peregrinação.
Há túneis com água,
Castelos de brincar
Onde a Sara inventa — por breves instantes —
A glória do seu reino e do seu nome.
Na maré baixa
Migram os rochedos,
As fortalezas dão lugar a pequenos lagos
De algas e canções.
As crianças disputam o pequeno areal
Enquanto os pais, de olhar mais distraído nos veleiros,
Sonham Dezembro disposto noutras fortalezas,
Num outro ângulo de visão.
A praia, o pequeno areal,
O mar em frente
Estende ou aproxima os pequenos sonhos
Baralhados num jogo de brincar.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Subscrever:
Mensagens (Atom)



















