
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Um poema meu
Vale a pena, sim.
Depois de dois dedos de conversa, voltaremos ao mesmo silêncio.
Um deles irá combater a morte sempre que o trigo e a videira desçam para nascer.
O outro perder-se-á na terra viva ou morrerá em país estrangeiro.
Dedos e dedos de conversa. Não digas que não os trazias à mesa.
Ninguém te ama.
Ninguém te pensa no bosque, longe ou perto da luz radiosa.
Conheço-te. Sou eu que te compreendo o destino.
Tu perguntas jogaste, jogaste? Eu talvez tivesse lançado os dados, sacudindo os olhos. Chamava-me uma voz que dizia compreendes? Julguei ser a tua vez.
Pouso as mãos sobre a mesa.
Sufoco no teu ar, na tua imortalidade.
Os meus dedos compram tudo – que nojo esta espécie de amor.
Depois de dois dedos de conversa, voltaremos ao mesmo silêncio.
Um deles irá combater a morte sempre que o trigo e a videira desçam para nascer.
O outro perder-se-á na terra viva ou morrerá em país estrangeiro.
Dedos e dedos de conversa. Não digas que não os trazias à mesa.
Ninguém te ama.
Ninguém te pensa no bosque, longe ou perto da luz radiosa.
Conheço-te. Sou eu que te compreendo o destino.
Tu perguntas jogaste, jogaste? Eu talvez tivesse lançado os dados, sacudindo os olhos. Chamava-me uma voz que dizia compreendes? Julguei ser a tua vez.
Pouso as mãos sobre a mesa.
Sufoco no teu ar, na tua imortalidade.
Os meus dedos compram tudo – que nojo esta espécie de amor.
sábado, 16 de maio de 2009
Um poema meu
A minha solidão não tem nome.
Entra calada por esta porta, sai muda e despida depois de concluir que Sempre foi inútil.
A minha solidão é como a tua - talvez tivesse tido um rosto menos só.
(apertamos as mãos, olhamos a rua).
Entra calada por esta porta, sai muda e despida depois de concluir que Sempre foi inútil.
A minha solidão é como a tua - talvez tivesse tido um rosto menos só.
(apertamos as mãos, olhamos a rua).
UM POEMA DE MIGUEL-MANSO
BOTÂNICA
Backster decidiu utilizar um detector
de mentiras para medir a velocidade com que
a água sobe da raiz de um filodendro
até às folhas
apercebeu-se então que
o desenho era em tudo semelhante
ao que acontece quando se submete o mesmo
aparelho a uma pessoa
e
mais espantoso ainda
verificou serem as plantas capazes de
adivinhar o pensamento humano
pois só assim se explica a dramática
subida do nível gráfico
apenas por ter passado pela cabeça
de Backster a hipótese de queimar
uma das folhas
entende-se melhor agora a insistência
de alguns botânicos na necessidade de se dar
mais atenção aos letreiros
«É favor não pisar a relva»
Backster decidiu utilizar um detector
de mentiras para medir a velocidade com que
a água sobe da raiz de um filodendro
até às folhas
apercebeu-se então que
o desenho era em tudo semelhante
ao que acontece quando se submete o mesmo
aparelho a uma pessoa
e
mais espantoso ainda
verificou serem as plantas capazes de
adivinhar o pensamento humano
pois só assim se explica a dramática
subida do nível gráfico
apenas por ter passado pela cabeça
de Backster a hipótese de queimar
uma das folhas
entende-se melhor agora a insistência
de alguns botânicos na necessidade de se dar
mais atenção aos letreiros
«É favor não pisar a relva»
terça-feira, 21 de abril de 2009
"Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão."
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão."
Herberto Helder
sábado, 7 de março de 2009
Cesare Pavese
(...)Sabemos que o modo mais seguro - e mais rápido - de nos espantarmos é fixarmos impávidos o mesmo objecto. Num belo momento, este objecto parecer-nos-á - miraculoso - que nunca o tínhamos visto.
sexta-feira, 6 de março de 2009
Cesare Pavese
(...) A água é mais azul que os abrunhos no meio do verde. Parece-me que sou uma sombra entre as sombras das árvores. Quanto mais me aqueço a este sol, mais me parece derreter-me em gotas e sussurros, na voz do lago, nos renques do bosque. Há algo de remoto atrás dos troncos, nas pedras, no meu próprio suor(...)
Um poema de Cecília Meireles
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
.
.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
.
.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
quinta-feira, 5 de março de 2009
Um poema de Carlos de Oliveira
seguindo o fio
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor:
Micropaisagem, 1969
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor:
Micropaisagem, 1969
Um poema de Manuel de Freitas
Havia junto ao velho portão
um monte de tijolos vermelhos
e não existe nenhuma razão concreta
para se considerar relevante aquele momento.
Porém, julgando tocar a eternidade,
a criança ordenou ao tempo
que parasse. Pequeno deus
brincando sozinho ao entardecer,
sob as amarras azuis do bibe.
A ordem, claro, não pôde
ser cumprida. E só lhe restam
agora o tempo, o nada, a morte
e as palavras que não sabem dizê-los.
Ou essa música para mãos paradas
que trouxe consigo o Outono,
junto do velho portão verde
que tantos anos depois reabriu.
Chama-se Pandora, Cassandra,
Manuel António.
um monte de tijolos vermelhos
e não existe nenhuma razão concreta
para se considerar relevante aquele momento.
Porém, julgando tocar a eternidade,
a criança ordenou ao tempo
que parasse. Pequeno deus
brincando sozinho ao entardecer,
sob as amarras azuis do bibe.
A ordem, claro, não pôde
ser cumprida. E só lhe restam
agora o tempo, o nada, a morte
e as palavras que não sabem dizê-los.
Ou essa música para mãos paradas
que trouxe consigo o Outono,
junto do velho portão verde
que tantos anos depois reabriu.
Chama-se Pandora, Cassandra,
Télefo, mas volta a assinar
Manuel António.
Primavera
Quando o pessegueiro rebentar
Vou eu hibernar no tronco dele.
Os seu frutos serão disfarçadamente os meus.
Vou eu hibernar no tronco dele.
Os seu frutos serão disfarçadamente os meus.
Anos 90
O teu corpo dói (confesso).
Não sei se por desejo ou atrofío
Mas sinto dor nos teus braços,
Sinto que a carne parte para lugares que não conheço.
Fora assim, na noite passada. Eu chegara,
Dias depois de ti
E não te vira no café habitual.
O meu amor - desculpa, não leias, fica mal - não se encontrava por ali.
Pensei-te no choupal,
Procurei-te nas folhas renovadas
E encontrei-te.
Mas senti dor.
Não sei se por desejo ou atrofío
Mas sinto dor nos teus braços,
Sinto que a carne parte para lugares que não conheço.
Fora assim, na noite passada. Eu chegara,
Dias depois de ti
E não te vira no café habitual.
O meu amor - desculpa, não leias, fica mal - não se encontrava por ali.
Pensei-te no choupal,
Procurei-te nas folhas renovadas
E encontrei-te.
Mas senti dor.
Olhava profundamente nos teus olhos
E pensava não há nada de errado neste brilho - sinto fogo
Terra cravada nos pés, uma espécie de aliança com as árvores mais antigas.
Depois, os vitrais confirmariam a minha insistência - o pão,
O vinho,
O Alentejo em figura estilizada.
Crescera por dentro
Ao ver-te melhor nessa luz;
Os teus olhos eram agora aquilo que eu julgara ver
Ou talvez o brilho fosse um simples jogo de espelhos
Onde nos baralhamos
Nas voltas do farol.
E pensava não há nada de errado neste brilho - sinto fogo
Terra cravada nos pés, uma espécie de aliança com as árvores mais antigas.
Depois, os vitrais confirmariam a minha insistência - o pão,
O vinho,
O Alentejo em figura estilizada.
Crescera por dentro
Ao ver-te melhor nessa luz;
Os teus olhos eram agora aquilo que eu julgara ver
Ou talvez o brilho fosse um simples jogo de espelhos
Onde nos baralhamos
Nas voltas do farol.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Trago-te ao Espaço da Janela
Trago-te ao espaço da janela.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse «uma alucinação». A
única resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
sábio com quem quiseste ser sábio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.
«Talvez seja a morte» «não»
«se for a morte o coração baterá mais ou menos forte».
O corpo
não tem grande lugar.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse «uma alucinação». A
única resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
sábio com quem quiseste ser sábio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.
«Talvez seja a morte» «não»
«se for a morte o coração baterá mais ou menos forte».
O corpo
não tem grande lugar.
João Miguel Fernandes Jorge, in "Meridional"
Vestígios
noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas - noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavamos
líquenes das imundas máscaras
hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se
onde se pode - num vocabulário reduzido e
obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir
apesar de tudo
continuamos e repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva - vamos pela febre
dos cedros acima - até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas - noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavamos
líquenes das imundas máscaras
hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se
onde se pode - num vocabulário reduzido e
obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir
apesar de tudo
continuamos e repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva - vamos pela febre
dos cedros acima - até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial
Al-Berto
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
Jorge de Sena
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Há um segredo nas grades do portão. É por ter grades que o portão é secreto. Às vezes, chego perto dele, tento empurrá-lo mas não consigo porque não tenho a chave que o abre. E quando alguém o abre eu não estou perto dele. Mas isso é só por acaso, pois eu estou muitas vezes perto do portão. Do outro lado vejo uma casa que não deve ser habitada, pois as portadas das janelas nunca estão abertas. Depois, vejo uma estrada que se estende até perder de vista, até ao momento onde de certeza existe outro portão. Mas esse portão eu não conheço. Não sei se existe e não sei se está fechado ou aberto. É por isso que não me conheço. E nesse portão deve existir alguém que o abre, que o fecha, que o empurra, mas que não consegue porque não tem a chave. E esse alguém eu não sei se existe. É por isso que não me conheço.
Há um mistério nas grades do portão. Cortam a casa e a paisagem. É por isso que não me conheço.
Empurro o portão com força.
Este abre com dificuldade. Vejo a casa sem grades e toda a paisagem.
Viro costas.
Vejo o mesmo que via, agora reflectido nas águas do lago.
Existirá um portão com grades? Não o vejo. É por isso que não me conheço.
Anos 90
domingo, 15 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Subscrever:
Mensagens (Atom)


.jpg)














































