A minha canção é feita de ti, espaço musical que percorro dos pés à cabeça. Digo isto para mim, talvez por ser piroso, talvez porque o amor - o amor ninguém sabe o que é, alguém viu? - é uma questão muito retratada no cinema. Já o Visconti filmava isso. Lembro-me de um velho, de um jovem que fazia tudo por tudo para ser mete-nojo. Mas é claro, andamos às voltas a descobrir estas coisas. Receitas, formulários, inquéritos, censos, tudo serve. E daí?
quinta-feira, 8 de abril de 2010
À primeira curva perdes o rio. Se andares cem metros, o azul ressurge até perderes de vista. Depois encontras um restaurante onde deves pedir o prato do dia. Se fizeres sempre isto, se andares em romaria ou não, alimentas o espírito e o estômago. Não reparaste numa acácia em flor, não viste o teu nome na pessoa que ria, não foste ao enterro da criança. Daqui a uns anos, vais fazer a mesma curva, vais pedir outro prato a um outro empregado. Depois, vais fingir que não reparas na acácia e na pessoa que tem o teu nome. Daqui a uns anos, amigo, desculpa, vais fazer a curva da estrada e não vais reconhecer a acácia e a pessoa que tem o teu nome. O mar continuará azul e verás a criança que brincava, ao fim da tarde, na falésia.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Austrália
Estar morto é sentir-me aqui: Vivo, a querer um pouco o néctar do que sei e não sei. Aquele abraço, aquele regresso. Lembras-te? Foi num fim de tarde. Eu estava junto ao poço onde existia uma grande nogueira e uma nora. Uma árvore, uma fonte, tu. Que mais sabia eu da vida? Nem conhecia mapas. A Austrália poderia ser aqui, perto de um eucalipto. Agora quero ir lá contigo. Vamos?
Quantas vezes partimos com o vento, esse mesmo que trouxera a memória primordial. Quantas vezes partimos com o vento, antes dos filhos criados, antes das ceifeiras abandonarem os campos de pão. Certo dia comprei peixe na mesma banca. A mulher que conheci há vinte anos perguntou por mim. Eu perguntei em silêncio pela sua voz emigrada de ventre. Envelhecera. Eu também. Há um tempo para envelhecer em qualquer idade e isso vê-se na pedra gasta das sardinhas na praça.
Ás vezes partimos com o vento, sem sabermos porquê. Às vezes, envelhecer é escrever.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Recuso as Guerras, amor. Só me interessa este lado do rio. O que se passa para lá desta ponte, das águas turvas, não me diz respeito. O mundo não é assim tão global. Sou deste modo, deste lado. Sei de ti, dos teus, do povo que te cerca. Pouco mais. A saber de tudo isto, demorarei meio mundo. Global? Pode ser que sim. Depois de te ter conhecido.
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